Ao som pulsante dos tambores do caxambu, entre palmas ritmadas e cantos que ecoam a memória de seus ancestrais, o quilombo Monte Alegre, em Cachoeiro de Itapemirim, deu vida a mais uma edição do Raiar da Liberdade no último sábado (16). O evento, que anualmente relembra a abolição da escravatura no Brasil sob a ótica da resistência negra, reúne grupos do patrimônio imaterial sul-capixaba e centenas de visitantes que prestigiam essa grande exaltação cultural, conduzida há mais de seis décadas pela mestra de caxambu Maria Laurinda Adão.
Mais do que uma festa de celebração das raízes afro-brasileiras, o Raiar da Liberdade é um espaço vital de reflexão. Por isso, um dos grandes destaques da programação deste ano foi um importante debate, com o tema “13 de maio, abolição inacabada: racismo estrutural e religioso no Brasil”, que trouxe a campo vozes importantes, como a deputada estadual Camila Valadão, o promotor de justiça do MPES Dr. Wagner Eduardo Vasconcellos, o historiador do IPHAN Filipe Oliveira da Silva e a vereadora de Vitória Ana Paula Silva da Rocha, sob a mediação cuidadosa da professora e escritora cachoeirense Luciene Carla Francelino.
“Estar na comunidade quilombola de Monte Alegre, em alusão ao 13 de Maio, é também reafirmar a necessidade de refletirmos criticamente sobre a história do Brasil e sobre as permanências do racismo em nossa sociedade. Quando falamos em abolição inacabada, estamos questionando uma liberdade que não garantiu dignidade, terra, educação, oportunidades ou reparação histórica para a população negra. Termos realizado esse debate em um território quilombola fortalece ainda mais o significado desse encontro, porque os quilombos representam resistência, memória, ancestralidade e luta coletiva”, afirma Luciene Carla.
Também compuseram a programação do Raiar a realização de uma missa afro, celebrada pela Pastoral Afro da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, a apresentação de diversos grupos de folia de reis, capoeira, jongo, charola de São Sebastião, boi pintadinho e caxambu, além da tradicional feijoada comunitária, preparada pelos próprios moradores do quilombo e que possui uma grande importância para o povo negro. Todos esses momentos contribuem para fortalecer laços e reafirmar o espírito coletivo e histórico que sustenta o evento.
A organização dos festejos fica a cargo do grupo de caxambu Santa Cruz, nascido no próprio quilombo e um dos expoentes mais reverenciados da região Sudeste. É reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, pelo Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; como Ponto de Cultura, pelo pela Política Nacional Cultura Viva; e como Ponto de Memória, pelo Ibram – Instituto Brasileiro de Museus.
“A gente fica satisfeito de ter uma festa como essa na nossa comunidade de Monte Alegre. Agradecemos ao público e aos grupos que estiveram presentes, compartilhando esse momento tão lindo com a gente”, comenta a mestra Maria. Genildo Coelho Hautequestt Filho, pesquisador e coordenador do projeto, afirma que “sempre que uma festa como esta é realizada, nós estamos reavivando nas pessoas a memória de um passado que não pode ser esquecido, pois ainda se reflete no presente, em inúmeras situações de racismo todos os dias. Esse é um tema que não pode sair de pauta. Apesar da festa, o tom não é só de comemoração, mas principalmente de reflexão”.
A 138ª edição ganha um contorno ainda mais histórico e merecido: a festa Raiar da Liberdade foi declarada como Patrimônio Cultural Imaterial do Espírito Santo, em 2024. O título foi entregue diretamente às mãos das mestras Maria Laurinda, Adevalmira, Neuza, Geralda e Zeli, em cerimônia oficial, e coroa uma luta contínua pela valorização da cultura cachoeirense e capixaba.
Além disso, a escola de samba Unidos da Piedade, de Vitória, anunciou que o tema de seu desfile para o Carnaval da capital, em fevereiro de 2027, será justamente o Raiar da Liberdade, o que consolida a importância dessa festa para a identidade cultural capixaba e cachoeirense. Sobre isso, Maria Laurinda comenta que “agora é a vez da nossa comunidade e do nosso caxambu ganharem a avenida com a Piedade. O samba e o caxambu são companheiros, nasceram da mesma raiz”.
A festa deste ano foi viabilizada com recursos públicos do Governo do Espírito Santo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba – LICC, da Secretaria da Cultura, e contou com o patrocínio da Antônio Autopeças, parceira fundamental na valorização, no fomento e na manutenção das mais profundas tradições culturais sul capixabas.
A festa Raiar da Liberdade de Vargem Alegre também integrou as atividades do projeto Pontão de Cultura Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense, que é viabilizado pelo Edital 006/2024 – Fomento a Projetos Continuados de Pontões de Cultura, da Secult – Secretaria de Estado da Cultura, por meio da Lei Cultura Viva. Conta, ainda, com o apoio do Instituto de Preservação do Patrimônio Cultural Ádapo. As ações do Pontão podem ser acompanhadas por aqui e pelo nosso Instagram: www.instagram.com/patrimonioimaterial.ci. Todos os links de perfis e canais de comunicação oficiais encontram-se em www.linktr.ee/
Fotos: Luan Faitanin Volpato